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Por que precisamos falar sobre representatividade nos espaços de poder? – por Bruno Alves

Salvador, primeira capital do Brasil, também reconhecida como Roma Negra, por possuir a maior população negra fora do continente africano. Poderia ser um exemplo de sucesso para os negros do Brasil no que diz respeito a representatividade e espaço de poder, porém estamos distantes de assumir esse espaço de referência.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 8 em cada 10 moradores de Salvador são negros, 80%, ou seja, se autodeclararam de cor preta ou parda. Mesmo com essa maioria que se aproxima da quase totalidade a nossa cidade é majoritariamente representada pelos 20%.

Ser majoritariamente negra não significa dizer que os espaços devam seguir de forma incontestável esse número, porém salta os olhos essa diferença que não é fruto do acaso. Não podemos esquecer que a população negra no Brasil foi escravizada de forma oficial até o dia 13 de maio de 1888. No dia seguinte foi marginalizada, rotulada de preguiçosa, após construir o país, e teve que empreender para sobreviver.

Quando olhamos para os espaços de poder a história se repete e deixa claro que a democracia racial em Salvador é um delírio de carnaval que acaba na quarta-feira de cinzas. Por que delírio? Simples, nem mesmo na maior festa popular do planeta a nossa representatividade é acolhida. Já nos foi vendido que o carnaval de Salvador é para turista. Lembra que éramos proibidos em desfilar em determinados blocos? Como resposta surgiu, por exemplo, o mais antigo bloco afro do carnaval de Salvador, ILê Aiyê.

Por que Salvador nunca conseguiu eleger democraticamente um prefeito negro? Nós tivemos o jurista e professor Edvaldo Pereira de Brito que foi nomeado prefeito de pelo governador Roberto Santos, entre agosto de 1978 e abril de 1979. Não me venha dizer que em todo esse período faltaram nomes qualificados, ou alguma narrativa similar. Não é verdade. O próprio professor Edvaldo Brito é um exemplo de que esse argumento é uma falácia.

É preciso compreender que representatividade está diretamente ligada a construção da identidade do indivíduo, ao protagonismos de pautas inerentes a esses segmentos, e como consequência, na gestão pública, o enfrentamento de problemas que são caros e prioridades para o desenvolvimento desses grupos. O problema não é ter a participação dos 20%, e sim os 80% estarem excluídos do processo de decisão.

Por exemplo: a educação domiciliar é uma pauta que vem se mostrando cada vez mais relevante, principalmente com a pandemia do coronavírus, é uma modalidade de ensino que os pais ou tutores assumem o papel dos professores. É legitimo e importante trabalharmos essa pauta.

Porém, para muitos pais e mães a principal angustia é saber onde os filhos irão ficar quando eles estão trabalhando. Se vai ser na creche ou na escola em tempo integral. Inclusive, muitas vezes, essa permanência está diretamente ligada ao número de refeições que a criança, jovem, ou adolescente irão fazer ao longo do dia.

A diversidade na representatividade nos espaços de poder e na gestão pública é fundamental para enfrentar os problemas de todos. Enquanto essa diversidade não for alcançada dificilmente todos os problemas serão enfrentados. Não apenas por falta de vontade política, mas, principalmente, por falta de compreensão e vivencia.

Nesse período de pandemia as prioridades estão passando em nossa timeline. Tem pessoas que pedem a reabertura das atividades econômicas, mas não pedem a reabertura das escolas dos seus filhos. Dizem, inclusive, que não irão enviar.

Ao mesmo tempo outras pessoas estão preocupadas com quem irão deixar seus filhos quando a atividade econômica retornar e as escolas e creches permanecerem fechadas. A questão não é quem está certo ou errado, e sim quem não está sendo representado nesse momento.

Nós precisamos falar sobre representatividade, todas as forma de preconceito, e ao mesmo tempo apresentar seus desdobramentos. Nós fomos conduzidos a pensar que determinados espaços não são nossos, mas, é preciso aprender a coisa certa: nós temos que estar presentes em todos os espaços.

Bruno Alves é Secretário Nacional da Juventude Democratas