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O ano de 2014 com certeza ficará marcado como aquele em que se assistiu à mais renhida eleição desde a volta do escrutínio direto. O Partido dos Trabalhadores, no poder desde 1º de janeiro de 2003, completou neste primeiro de janeiro mais de uma década no comando do Governo Federal e, ainda assim, participou do pleito eleitoral como se oposição fosse, propagando uma mudança na feição das políticas públicas. A situação era tão esdrúxula que, pela “milionésima” vez, compararam os feitos de Dilma com as realizações de FHC. Uma comparação ilógica. Afinal, que sentido há em comparar o atual governo com outro, que se encerrou há mais de doze anos?! Então por que não comparam o atual cenário econômico com o crescimento chinês que tivemos no governo Médici, por exemplo? À época, o Brasil chegou a crescer 14% a.a. Muito além do 0,8% que cresceremos agora em 2015, como prevê a equipe econômica de Dilma. A conveniência política aliada à velhacaria ideológica nunca foi boa conselheira a quem faz uso de comparações.

Enquanto a Presidente Dilma não aparecia para trabalhar, a candidata Dilma percorreu o país em campanha e fez uma caminhada baseada em premissas falsas, obras inacabadas, dados maquiados e ameaças veladas. De braços dados com o que há de pior na política nacional e regional, a candidata do Partido dos Trabalhadores mentia sem qualquer constrangimento.

A ética e a probidade não possuem moradas no governo do PT. A eleição se deu no meio de uma das maiores operações da Polícia Federal, abalando a principal empresa estatal do Brasil. No Brasil do PT, a Petrobras foi de orgulho nacional à líder mundial em negociatas profundas. O que se viu (e vemos até hoje) é a completa degradação das instituições públicas no atendimento a interesses escusos. Bilhões de reais desviados e a completa lapidação do patrimônio dos brasileiros. Se o PT comprometeu o futuro com a expansão desenfreada do Bolsa-Família (transformado no maior programa oficial de compra de votos em todo o mundo), com os “ãos” das páginas policiais – Mensalão, Petrolão, etc – ele onera o presente. E quem paga a conta de um governo que se locupleta jamais serão os amicus curiae.

Neste cenário desgastante, nos estertores de um governo que causou o colapso da até então exitosa política macroeconômica, pensar-se-ia ser fácil a vitória da oposição. Mas o ano de 2014 fez a roda da história girar muitas vezes.

Em poucos meses um avião caiu e mudou o país para sempre. A trágica morte do ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos, fez com que a bipolaridade PT versus PSDB estremecesse um pouco, com a entrada de Marina Silva na disputa.

Mas Marina foi uma candidata fraca, sem apoios políticos significativos, sem desenvoltura, com muita rigidez ideológica e com pouquíssima clareza de pensamento. Seus 20 milhões de admiradores, até hoje, não entendem bem o que ela diz. Com qualidades deste nível, não foi difícil para o PT passar por cima de sua campanha.

Com os rottweilers voltados para Aécio Neves, o PT foi para o segundo turno mais cruel de uma disputa presidencial. Levou-se a campanha à lama. Desnudaram-se de qualquer pudor e achincalharam com a boa vontade do eleitor. Dilma disse que faria “o diabo”, e o fez. Mas, como em toda história há sempre um momento de contumácia, Aécio mostrou-se ser o líder de que a oposição necessitava.

O ex-governador de Minas Gerais e neto do ex-presidente Tancredo Neves tomou as rédeas da condução de sua campanha e mostrou que seu bico era bem maior do que o que dispunham os demais tucanos. Convocou o eleitorado tucano e conquistou novas camadas sociais, levando para as ruas das principais cidades do país milhares de pessoas, dispostas a lutar não por um partido, mas por um país melhor.

As ruas de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e tantas outras se encheram de pessoas que, vestindo as cores pátrias, impulsionaram uma “onda” que levou Aécio a se consolidar como o candidato das oposições, o candidato da mudança. O que nunca havia se assistido, aconteceu. Multidões, de todas as classes sociais, saíram de suas casas, cantaram o hino nacional e deixaram claro seu descontentamento, pedindo um basta à corrupção, à impunidade, a tanta miséria moral.

Aécio Neves não conquistou o poder, mas conquistou as ruas. E era exatamente isto que faltava a oposição, um líder carismático que pudesse encarnar o sentimento de mudança.

Em São Paulo, o clima pós-eleição foi de ressaca. A segunda-feira chegou causando mais disforia que o normal. Centro do principal apoio a Aécio, São Paulo apostou na mudança. Aquilo que os paulistas puderam fazer, fizeram.

As urnas deram à candidata Dilma mais quatro anos à frente da chefia de governo. Esperamos que sejam os últimos. Mas ganhar uma eleição tão apertada como a que vivenciamos, é, no ditado norte-americano, “ganhar a eleição, mas perder o mandato”. A soberba não encontra lugar em uma diferença de pouco mais de 2% de votos. Dilma governará o país com a certeza gritante de que metade da nação a desaprova. Um país dividido, de fato. Mas o que é a democracia, senão uma divisão? Vence-se, contudo, a maioria. E respeita-se a minoria. Enquanto o senador Aécio por onde passa é recebido por pessoas em polvorosa, a presidente Dilma continua ouvindo vaias atrás de si.

Uma década de PT no governo criou um cenário curioso. Dilma governará um país altamente anti-petista. O clima é o mais pesado, também, desde a volta das eleições diretas. E a situação tende a se agravar. O estelionato eleitoral ficará consolidado como a marca da presidente Dilma na chefia do governo. Nunca uma presidente colocou em prática o completo oposto do que pregava e propagava antes das eleições. Para Dilma, mentir é a regra. Exceção é cumprir o que prometeu. Com efeito, o país dos sonhos da campanha do PT não resistiu a uma semana depois do pleito.

Como gosta de frisar a mandatária do executivo federal, é de estarrecer ver um governo executar medidas que acusava o opositor – no caso, Aécio Neves – de tentar pô-las em prática. O PT da eleição que acusava a oposição de, por ter o apoio do setor bancário, tirar “o prato de comida da mesa do pobre”, foi rapidamente pedir ajuda aos executivos do Bradesco. Como ouviu um sonoro “não”, recorreu a um economista ortodoxo ligado, vejam só, ao pensamento de onde o PSDB tira seu receituário.

Neste ínterim, esperamos que o PT tenha aprendido uma preciosa lição: em matéria econômica suas práticas são quase mais viciosas do que as que praticam no âmbito moral e administrativo. Quando um petista (e a maioria deles se considera versada em economia) intervém, o resultado é catastrófico. Lula conseguiu entender esta realidade e foi encontrar em Henrique Meirelles, um ex-banqueiro e ex-tucano, a âncora de estabilidade de seu governo. Dilma, ao contrário, imaginou-se capaz de acumular a chefia de Governo com a pasta da Fazenda. O resultado foi crescimento econômico quase nulo (chegamos à recessão técnica), inflação descontrolada, aumento da miséria, perda da credibilidade, fuga de investidores e desarranjo do sistema de preços definidos pelo mercado. Agora, já avistando o precipício, teve de ceder e nomeou Joaquim Levy sua âncora: um notório economista, respeitado pelas suas convicções acadêmicas e, bom ressaltar, fortemente ligado ao PSDB.

Fica claríssimo que Dilma se rendeu à óbvia constatação de que o receituário tucano de conduzir a economia é a forma mais correta, ainda que não totalmente perfeita. O que nos resta saber é se o ministro Joaquim Levy sobreviverá ao ranço ideológico do PT.

Tem-se assim o pano de fundo do ano de 2015. Tudo muito novo, para uma classe política acostumada a velhas práticas. E no que tange à velhice, o cansado PT, decrépito no terceiro andar do Palácio do Planalto, tem seu quarto governo sucessivo pela frente. Um governo cujo mandato deverá conquistar, pois nem só de uma massa de necessitados e outra de coniventes ideológicos vive um país.

Vinícius Scramin é bacharelando em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro da Juventude Democratas de São Paulo